sexta-feira, 19 de fevereiro de 2010

Vida do Trabalhador

Amou daquela vez como se fosse a últimaBeijou sua mulher como se fosse a últimaE cada filho seu como se fosse o únicoE atravessou a rua com seu passo tímidoSubiu a construção como se fosse máquinaErgueu no patamar quatro paredes sólidasTijolo com tijolo num desenho mágicoSeus olhos embotados de cimento e lágrimaSentou pra descansar como se fosse sábadoComeu feijão com arroz como se fosse um príncipeBebeu e soluçou como se fosse um náufragoDançou e gargalhou como se ouvisse músicaE tropeçou no céu como se fosse um bêbadoE flutuou no ar como se fosse um pássaroE se acabou no chão feito um pacote flácidoAgonizou no meio do passeio públicoMorreu na contramão atrapalhando o tráfego
Amou daquela vez como se fosse o últimoBeijou sua mulher como se fosse a únicaE cada filho seu como se fosse o pródigoE atravessou a rua com seu passo bêbadoSubiu a construção como se fosse sólidoErgueu no patamar quatro paredes mágicasTijolo com tijolo num desenho lógicoSeus olhos embotados de cimento e tráfegoSentou pra descansar como se fosse um príncipeComeu feijão com arroz como se fosse o máximoBebeu e soluçou como se fosse máquinaDançou e gargalhou como se fosse o próximoE tropeçou no céu como se ouvisse músicaE flutuou no ar como se fosse sábadoE se acabou no chão feito um pacote tímidoAgonizou no meio do passeio náufragoMorreu na contramão atrapalhando o público
Amou daquela vez como se fosse máquinaBeijou sua mulher como se fosse lógicoErgueu no patamar quatro paredes flácidasSentou pra descansar como se fosse um pássaroE flutuou no ar como se fosse um príncipeE se acabou no chão feito um pacote bêbadoMorreu na contra-mão atrapalhando o sábado
Por esse pão pra comer, por esse chão prá dormirA certidão pra nascer e a concessão pra sorrirPor me deixar respirar, por me deixar existir,Deus lhe paguePela cachaça de graça que a gente tem que engolirPela fumaça e a desgraça, que a gente tem que tossirPelos andaimes pingentes que a gente tem que cair,Deus lhe paguePela mulher carpideira pra nos louvar e cuspirE pelas moscas bicheiras a nos beijar e cobrirE pela paz derradeira que enfim vai nos redimir,Deus lhe pague

Chico Buarque
construção

segunda-feira, 15 de fevereiro de 2010

Carnaval

A festa da carne, da bebida, da música, do sexo... culto ao deus Dionísio. Como não amá-lo??. Escrevo na eminência de uma festa de carnaval... tudo se parece com um encontro amoroso: a mesma ansiedade, mesmos receios, uma deliciosa eletricidade no ar, ics se comunicando. Viva a festa, viva a bebida, viva o sexo desenfreado, viva Dionísio, que a cada ano renasce em nossos corpos em êxtase , em embriaguês. Amo aqueles que se consomem como gravetos em uma fogueira, amo aqueles que por quatro dias vivem como o além-do-homem, a criança-deus, que só cultua o deus que sabe dançar ou melhor que sabe sambar.

domingo, 14 de fevereiro de 2010

Bandeira branca

Bandeira branca, amor Não posso mais. Pela saudade, Que me invade eu peço paz. Bandeira branca, amor Não posso mais. Pela saudade, Que me invade eu peço paz. Saudade, mal de amor, de amor Saudade, dor que dói demais. Vem, meu amor Bandeira branca eu peço paz.

sábado, 13 de fevereiro de 2010

miscelânea

malboro solidão sabado jazz eu diversão nada celavie grana uma bosta rosana gente diversão nós bar gyatfagajhasbsisisjsnkjshisjhss todas possibilidades falha cocaína sexo tv telefones nada becket andar sozinho miles davis poker huakoaoahaigaiainaijoiaiyauaauagbahaaphahcds

O paraíso perdido


Acabo de re-assistir Buena Vista Social Club, um filme de Win Wenders e ainda escrevo sob o êxtase provocado pelo filme. Uma história simples: o produtor musical Roy Cooder vai a Cuba produzir um disco, lá ele acaba redescobrindo grandes músicos cubanos totalmente esquecidos, como o pianista Raúl, que há dez anos não tocava seu instrumento. O filme mescla cenas de shows ao vivo e entrevistas com os músicos que contam uma pequena história. Vendo esse filme consigo entender melhor a idéia de gênio popular, a música brota deles como algo natural, como se apenas respirassem; claro todos eles estudaram musica, mas só o estudo não garante que musicalidade soe com tanta verdade, como é o caso. Outro aspecto bem legal do filme são as imagens de Cuba, tudo é antigo, velho, embolorado, ou seja , lindo. Os prédios nos contam uma história, neles o Tempo deixou sua marca.

sexta-feira, 12 de fevereiro de 2010

Charles Baudelaire


Para Rô

amor


Profundos prazeres do vinho, quem não os conhece? Quem quer que tenha tido um remorso a aplacar, uma lembrança a evocar, uma dor a esqueçer, um castelo na Espanha a construir, todos enfim já o invocaram, deus misterioso escondido nas fibras da videira. Como são grandes os espetáculos do vinho, iluminados pelo sol interior! Como é verdadeira e abrasadora esta segunda juventude que o Homem dele retira! Mas como são, também perigosas suas volúpias fulminantes e seus encantamentos enervantes!


Baudelaire

O Haxixe, O òpio e o Vinho

sexta-feira, 5 de fevereiro de 2010

Raduan Nassar

" sem contarque ela, de olho no sangue do termômetro, se metera a regular também o mercurio da racionalidade, sem suspeitar que minha razão naquele momento trabalhava a todo vapor, suspeitando menos ainda que a razão nunca é fria e sem paixão, só pensando o contrário quem não alcança na reflexão o miolo propulsor, para ver isso é preciso ser realmente penetrante."


Trecho de "Um copo de cólera"
de Raduan Nassar

quarta-feira, 3 de fevereiro de 2010

Tiergarten

Para Rosana Steinke
meu amor


Saber orientar-se numa cidade não significa muito. No entanto, perder-se numa cidade , como alguém se perde numa floresta, requer instrução. Nesse caso, o noma das ruas deve soar para aquele que se perde como o estalar de graveto seco ao ser pisado, e as vielas do centro da cidade devem refletir as horas do dia tão nitidamente quanto um desfiladeiro


Walter Benjamin
Infância em Berlin

segunda-feira, 1 de fevereiro de 2010

Livros e Putas

Livros e Putas pode-se levar pra cama.

Livros e Putas entrecruzam o tempo. Dominam a noite como dia e o dia como a noite.

Ao ver Livros e Putas ninguém diz que os minutos são preciosos. Mas quem se deixa envolver mais de perto, só então nota como tem pressa.

Livros e Putas têm entre si, desde sempre, um amor infeliz.

Livros e Putas, cada um deles tem sua espécie de homens que vivem deles e os atormentam. Os livros, os criticos

Livros e Putas em casas públicas, para estudantes.

Livros e Putas, raramente vê seu fim alguem que os possui. Costumam desaparecer antes de perecer.

Livros e Putas gostam de voltar as costas quando se expoem.

Livros e Putas, velha peata, jovem devassa. Quantos livros não foram mal reputados, nos quais hoje a juventude deve aprender

Livros e Putas trazem suas rixas diante das pessoas.

Livros e Putas, notas de rodapé são para uns o que são, para outras, notas de dinheiro na meia


Walter Benjamin
Rua de mão única