quarta-feira, 17 de março de 2010

Epistemologia Pornográfica

O ocidente tem uma epistemologia pornográfica. Isto quer dizer que só nos damos por satisfeitos quando devassamos o objeto de nosso interesse por completo, quando fazemos esse objeto entregar todos os seus segredos, quando dissecamos e destrinchamos ele por completo. Isto tem reverberaçoes em nossa vida sexual. Só nos exitamos quando vemos ate o útero da mulher amada, só quando ela nos entrega todos seus pormenores é que nos damos por saciados. Só os ocidentais poderiam ter inventado a pornografia. A "escrita sobre prostitutas" é isso: é o revelar cada detalhe e minúcia do ato sexual. Isto tem problemas e para enumerá-los vou contar uma anedota do Goethe...Era uma vez um homem que observava uma cachoeira. Nela, ele via uma misturas de cores, branco, amarelo, vermelho e por aí vai. Então o homem quis obervar todas as cores que saíam da cachoeira. Fez o maior esforço e dominou todas elas. Ao fim do seu processo, ele só via a cor preta, todo aquela miríade de cores desapareceu. Este é o resultado do domínio total sobre um objeto, ele perde a graça... Ainda poderia citar o meu amigo Nietszche, que no seu livro "O nascimento da tragédia" no capítulo 9 , diz que a natureza não quer ser conhecida e, para aqueles que se aventuram, existe uma maldição guardada, vide o pobre édipo, que ao decifrar o enigma da natureza, posto pela esfinge, só se fode....

sábado, 13 de março de 2010

Drama Barroco/A Procissão dos Corações Melancólicos

Agora há pouco estava escutando minha banda favorita, o The Black heart Procession. Uns trinta minutos antes estava lendo um livro fantástico sobre Benjamim, chamado "Tradução e Melancolia". Quarenta e pouco minutos depois estava fumando Haxixe na cozinha.
Toda essa mistura resultou numa idéia/tradução genial. Isto por que eu sempre fui encanado com a tradução do nome da minha banda favorita ai. A tradução literal seria "A procissão dos corações negros", mas eu nunca gostei desse título. Lendo o livro do Benjamim eu me deparei com um capítulo intitulado "tradução luciferiana"; este "método" é utilizado por Haroldo de Campos em suas traduções de Holderlim. A tradução luciferiana consiste em se livrar da tradução servil, literal, para adentrar numa tradução-criação, numa tradução ativa ao invés de passiva.
Lá estava eu, sob o efeito do haxixe, tendo ainda em mente a tradução luciferiana e ouvindo os The black heart, quando comecei a pensar sob o título da banda. Ouvindo o som deles, que é extremamente triste e melancólico, eu sempre crio uma imagem de enterro, sabe, pessoas andando bem devagar e segurando um caixão; e foi quando um pensamanto sorrateiro me invadiu e eu pensei: por que no lugar de "corações negros" eu não traduzo por "corações em luto"? Pela teoria da tradução luciferiana eu estou completamente livre da obrigação de uma tradução literal.
Logo depois, voltei ao tema Benjamim, e começei a pensar sobre "A Origem do Drama Barroco Alemão", mais precisamente na "alegoria barroca", que é um tema que gosto muito. Os dramaturgos alemães barrocos, segundo Benjamim, tinham uma visão de mundo marcada pela dor da finitude, pela consciencia aguda da morte, pelo tema da história com ruína e fragmento. Isto me fez pensar como o próprio Benjamim ainda é um escritor-filosofo barroco. Logo começei a pensar numa alegoria criada por um amigo, enquanto eu lhe explicava o tema barroco. Disse meu amigo que pensou numa imagem de "um homem carregando um saco ossos". Começei a pensar na melancolia envolvida em tudo isso, este sentimento que tem sua origem no sentimento de perda, numa especie de "spleen", um pen-dor pelas coisas que passam. Logo voltei ao tema da tradução do nome da banda , e pensei que a mellhor tradução pare ela seria " A Procissão dos Corações Melancólicos", já que a forma de suas músicas são arrastadas como a marcha de um enterro. Pensei também que eles são uma espécie de banda barroca comtemporânea, pois tudo deles tem esse pendor melancólico, triste, "uma dor de não sei o quê". Mais aí o efeito do haxixe começou a passar e não tiva mais idéias legais.

Flerte com o Diabo

Para
Os turrões que não gostam de blog de citações.



Para quem é da igreja Frankfurtina do Reino da Negatividade, existem eventos que são como flertes com i Diabo, talvez para correligionarios de até 30 e poucos anos, o pior deles talvez seja o show de Rock. Agente sabe que é ruim, sabe que é um engodo, sabe que é ideologico, sabe que o Rock e o Jazz, são a trillha sonora da sociedade industrial, e ainda sim agente vai, grita, canta, gosta. Minha pergunta é: por que fazemos isso? porque nos intregamos de corpo e alma a esse espetaculo? por que ele nos é tão caro?
Seriam as luzes, que nos conduzem de maneira behavorista, a piscar freneticamente, que nos levam a essa loucura? Seriam os musicos, com suas pintas de rebeldes movendo-se como epileticos? Seria a musica, naquela batida 4x4, que nos hipnotiza?
A palheta de platisco bate na corda de aço, que por sua vez manda um impulso eletrico que passa pelos pedais de distorção, que por sua vez viajam pelas caixas de som ate baterem em meus ouvidos e ativarem uma corrente eletrica que se reverbera pelo meu corpo todo.
Pronto, é tudo fisiologia.




Obs: esse texto é fruto de uma incursão antropologica ao Show do Cachorro Grande.

quinta-feira, 11 de março de 2010

Pecado Original

Para
Jose Francisco Aguiar


Ah, quem escreverá a história do que poderia ter sido ?
Será essa , se alguém a escrever,
A verdadeira história da Humanidade.

O que há é só o mundo verdadeiro, e não nós, só o mundo;
O que não há somos nós, e a verdade está ai.

Sou quem falhei ser.
Somos todos quem nos supusemos.
A nossa realidade é o que não conseguimos nunca.

Que é daquela nossa verdade - o sonho a janela da infancia ?
Que é daquela nossa certeza- o propósito a mesa do depois ?

Medito, a cabeça curvada contra as mãos sobrepostas
Sobre o parapeito alto da janela da sacada,
Sentado de lado numa cadeira, depois do jantar.

Que é da minha realidade, que só tenho a vida ?
Que é de mim, que sou só quem existo?

Quantos Césares fui!

Na alma, e com alguma verdade;
Na imaginação, e com alguma justiça;
Na inteligencia, e com alguma razão-
Meu deus, meu deus, meu deus

Quantos Césares fui!!
Quantos Césares fui!!
Quantos Césares fui!!!



Fernado Pessoa

domingo, 7 de março de 2010


Para

Eduardo Lenzi



Há um quadro de Klee, que se chama Angelus Novus. Representa um anjo que parece querer afastar-se de algo que ele encara fixamente. Seus olhos estão escancarados, sua boca dilatada, suas asas abertas. O anjo da história deve ter esse aspecto. Seu rosto está dirigido para o passado. Onde nós vemos uma cadeia de acontecimentos, ele vê uma catástrofe única, que acumula incansavelmente ruína sobre ruína e as dispersa a nossos pés. Ele gostaria de deter-se para acordar os mortos e juntar os fragmentos. Mas uma tempestade sopra do paraíso e prende-se em suas asas com tanta força que ele não pode mais fechá-las. Essa tempestade o impele irrestivelmente para o futuro, ao qual ele vira as costas, enquanto o amontoado de ruínas cresce até o céu. Essa tempestade é o que chamamos progresso.